Quem é Valeska Gonçalves e onde atua profissionalmente hoje em dia?
Nasci no Rio de Janeiro, no ano de 1975, em janeiro. Meu primeiro contato com a dança foi aos 18 anos. Na época, fazia cursinho para prestar vestibular para Veterinária. Sempre gostei muito de animais, por isso sou vegetariana.
Minha primeira aula foi de Dança Flamenca e, aos poucos, fui estudando outros estilos de dança. Depois de dois anos fazendo as aulas, acabei entrando para a Faculdade de Dança da UniverCidade, no Rio, onde me formei quatro anos depois. Atualmente, trabalho com a Quasar Cia. de Dança, em Goiânia/GO.

Quais os estilos de dança com que trabalha?
Hoje praticamente só trabalho com o estilo contemporâneo, mas antes de entrar para a Quasar Cia. de Dança, trabalhava muito com a Dança Flamenca e acrobacia aérea no Rio.

Como foi o início de sua carreira? E que dicas você daria a si própria no início da carreira?
Como comecei a dançar bem tarde, a minha carreira mesmo começou aos 25 anos, quando passei a integrar a Cia. Dani Lima, também no Rio de Janeiro. E foi com a Dani que comecei a entender a Dança Contemporânea. Aprendi muita coisa com ela. Acho que o principal conselho que a Dani me deu foi pra eu ser mais “desencanada”. Porque eu ficava muito preocupada com a minha maneira de dançar, não aceitava minhas dificuldades e sempre via defeito em tudo o que fazia. E isso me atrapalhava bastante e não curtia quando estava dançando.

Qual seu contato com outros estilos de dança ou manifestação artística?
Além do Flamenco e do Tecido Aéreo, no início fiz aulas de Jazz, Moderno e Sapateado também. Tenho uma irmã que faz teatro e um irmão que é pintor. Os dois mais velhos que eu. Assisti a muitas peças da Carla e ensaios, antes de começar a dançar, e desde pequena acompanho as pinturas do Tião.

Quem são suas principais influências e parcerias no mundo da dança?
Acho que as maiores influências seriam a Pina Bauch e a Anne Tereza do Rosas. Sempre achei o trabalho das duas impecável e as bailarinas Gica Alioto e Lavínia Bizzotto me influenciaram muito no meu início, na Quasar Cia. de Dança. São duas bailarinas que admiro demais e aprendi muito com elas. Agora… parceria não tem como não dizer que é o Henrique Rodovalho. Afinal, já são mais de sete anos trabalhando juntos. Também na Quasar, dançava muito com o bailarino mexicano Camilo Chapela e com o carioca Daniel Calvet, que foram grandes parcerias em cena.

Como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?
Um pouco difícil… Eu reconheço que tenho sorte. Pois não é fácil viver só de dança no Brasil. Muitas vezes o profissional de dança tem que fazer mil coisas para poder se manter. Sem falar na realização profissional que às vezes nunca se concretiza. Mas apesar dessas dificuldades, ainda bem que existem profissionais maravilhosos e grupos de primeira linha na dança brasileira.

Você é bailarina da Quasar Cia. de Dança, uma das principais companhias de dança contemporânea do Brasil e do mundo. Como você entrou na companhia?
Foi uma “paquera” longa… Eu adorava o trabalho e sempre que a Quasar ia para o Rio eu estava lá assistindo. Acho que foi em 2000 que fiz meu primeiro contato com a Cia., mandando meu currículo. Então fiz uma aula com a companhia em São Paulo e o Henrique me viu. Mas na época não rolou nenhum convite. Então, em 2002, eu estava na Cia. Dani Lima e me chamaram para uma audição em Goiânia, na sede da companhia, e eu passei! Em 2003, eu retornei para o Rio e, dois anos depois, voltei a integrar o elenco da Quasar Cia. de Dança, onde estou até hoje.

Como é sua rotina de aulas, ensaios e viagens?
Nós trabalhamos de segunda a sexta, das 13h às 19h, com dois intervalos de 15 minutos. Fazemos Pilates segunda e quarta, Ballet na quinta e Contemporâneo na quarta e sexta. As aulas são sempre de 60 minutos e sempre ocorrem meia hora antes do ensaio. Ainda pratico Yoga três vezes por semana em casa, pela manhã. Nas viagens nossa rotina depende da turnê, às vezes mais puxada, outras menos. Mas sempre pratico a Yoga nas viagens para não perder o ritmo. E ainda sobra um tempinho para fazer alguns passeios.

Qual a maior vantagem e desvantagem em trabalhar em uma companhia grande e conceituada?
A maior vantagem é estar em cena com freqüência. Afinal, a maioria dos bailarinos rala nos ensaios e nas aulas para estar em cena! E dentre as desvantagens tem uma vantagem (risos), são as viagens… É sempre muito bom conhecer lugares e pessoas diferentes, dançar para platéias diferentes! Mas ficar longe da família e de casa é um pouco difícil às vezes. Principalmente quando a viagem é longa.

A trajetória da Quasar Cia. de Dança é marcada por desafios que instigaram o desenvolvimento de um estilo próprio, uma movimentação autêntica e vigorosa. Como foi o processo de adaptação do corpo para com essa linguagem proposta pelo coreógrafo Henrique Rodovalho?
Foi bem difícil… Minhas articulações são rígidas, então tinha dificuldade com a movimentação desarticulada que é própria do estilo criado pelo Henrique. Sem falar nos saltos mais vigorosos! Tinha medo de fazer as coisas mais acrobáticas. Era um pouco complicado…Hoje já estou bem mais tranqüila com a movimentação. Tenho sete anos na Cia. e só no ano passado que aprendi a fazer um salto que o Henrique usa bastante. Que vergonha, né? (risos)

Que dicas você daria àqueles que querem ser bailarinos profissionais ou mesmo sonham em fazer parte da Quasar Cia. de Dança?
Correr atrás do seu objetivo! Como em qualquer profissão. Procurar bons profissionais para fazer aula e ser dedicado, disciplinado, mas sem paranóia.

Qual seu ponto de vista em relação à existência de Festivais de Dança? Você costuma participar de eventos como estes?
Os festivais são para mim eventos de muita importância para a Dança. Você conhece pessoas, trabalhos novos. Às vezes dançamos em alguns festivais e eu adoro! Principalmente quando conseguimos assistir a outros trabalhos e até fazer oficinas.

Que momento e que trabalho de sua carreira você destacaria como especial?
Um momento que foi realmente especial foi quando voltei para a Quasar, em 2005. E o trabalho que eu destacaria acho que foi o espetáculo Céu na Boca de 2009. Foi a montagem em que fiquei mais à vontade.

Qual seu maior sonho profissional? E quais seus planos para 2011?
Acho que realizei alguns de meus sonhos. Estar na Quasar Cia. de Dança era um sonho muito forte. Hoeu maior sonho é poder trabalhar como coreógrafa e até mesmo ter uma companhia de dança. Já fiz alguns trabalhos com o elenco da Quasar Jovem, mas sei o quanto é difícil manter um grupo no Brasil. Meus planos para 2011 são dançar bastante ainda. Também estou envolvida num projeto com as bailarinas Flora Crosara e Luana Gomes, integrantes da Quasar Jovem. Vamos montar um duo baseado no conto Sem Palavras, de autoria da escritora e jornalista Larissa Mundim, que tem um blog muito interessante chamado Nega Lilu (www.negalilu.blogspot.com). Este novo trabalho se apropria da narrativa sensorial presente no conto para construir uma movimentação fluida, urgente, intensa que, para ser consumida, precisa se diluir, se fragilizar, como ocorre nos relacionamentos líquidos descritos pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Estamos em processo de montagem, com estreia prevista para setembro ou outubro, no Espaço Quasar, em Goiânia.