Quem é o Ray Santos?
Acredito nos meus sonhos e objetivos e trabalho diariamente para transformá-los em realidade, mesmo que alguns deles demorem dias, meses ou anos.
Sou uma pessoa que não desiste fácil quando realmente algo toca meu coração dizendo que devo fazer e realizar alguma coisa.
A felicidade chega para quem luta!

Quais os estilos de dança com que trabalha?
Eu trabalho com o Hip Hop Dance (Freestyle) há muitos anos, mas observo e estudo muito a dança contemporanêa.
Há um ano e meio, estou com uma pesquisa coreográfica, onde estudo a técnica de José Limon, Eduardo Menezes e de alguns artistas de Hip Hop Dance.
Eu chamo o resultado desta pesquisa de STREETCON, que é o Hip Hop Freestyle com uma intenção da dança contemporanêa. Estou aplicando essa ideia no novo espetáculo do Grupo Ray Santos & Cia, que tem como nome “O Som do Coração”. Pretendo transformar essa pesquisa em um workshop e viajar pelo Brasil para transmitir às pessoas um pouco desse novo estilo e unir bailarinos(as) e dançarinos(as) de Hip Hop e de dança contemporanêa em um mesmo ambiente.

O que te fez entrar no mundo da dança? Quando você tomou a dança como profissão?
O que me fez entrar no mundo da dança foi o meu irmão mais velho, o Miranda. Eu ficava no quintal de casa assistindo meu irmão com o cabelo black power, com os amigos ensaiando passinhos ao som de James Brown, Kool e The Gang, Whodini, Eart, Wind and Fire entre outros da música negra, e contava os dias para fazer meus 13 anos para ir ao baile com eles. E foi assim que tudo aconteceu. Comecei a ensaiar com eles e quando dancei em um baile pela primeira vez, senti uma emoção indescritível e tive certeza que iria seguir com isso.
Trabalhei dos 13 aos 18 anos como office boy e, no início do ano de 1992, decidi largar tudo e realmente tentar viver de dança.
Fui para o projeto Dança de Rua no início de 1992 e a partir dessa minha atitude, coloquei na minha cabeça que a dança iria virar minha profissão.

Como foi o seu início no meio da dança e como você virou integrante do grupo Dança de Rua do Brasil?
Eu já conhecia o Cirino dos bailes e fui para o projeto dança de rua fazer aulas no Teatro Municipal de Santos, onde me formei e conclui o curso de dança de rua.
No projeto, comecei dançando no grupo paralelo Black Star, do coreógrafo e amigo André Luiz e, no final de 1992, entrei no Grupo Dança de Rua de Santos, que nem era ainda Dança de Rua do Brasil (DRB). Desde então, me tornei integrante e dediquei 10 anos da minha vida ao DRB com muito orgulho e paixão.
Ter feito parte do DRB é algo que nunca vou esquecer na minha vida, por tudo que passamos juntos para fazer com que a Dança de Rua tivesse o respeito que tem hoje, dentro do cenário da dança no país.

Quem são suas influências artísticas? Quais ajudaram a criar a sua forma de dançar?
Bom, o primeiro artista que me influenciou foi Michael Jackson, na sequência veio sua irmã, Janet Jackson, Mc Hammer, entre outros da época. Não esquecendo de citar James Brown que assisto vídeos de seus shows até hoje.
Alguns coreógrafos(as) me influenciam artisticamente e eles são: Marcelo Cirino, Octávio Nassur, Eduardo Menezes, José Limon, Keone Madri, Ellen Kim e Mariel Martin (esta última que mais me inspira atualmente).
Os que me ajudaram na minha forma de dançar foram: Marcelo Cirino, depois Edson Guiu, que trouxe a nova linguagem do hip hop dance para o Brasil. Isso criou a oportunidade da gente conhecer outros dançarinos e coreógrafos,ou seja, a galera encontrou outras referências sem ser o grupo DRB, que teve uma legião que o seguiu por 10 anos. Na sequência, conheci vários dançarinos estrangeiros que me inspiram e alguns da nova geração, que, para mim, são exemplos, como o dançarino Pikolé do grupo Ritmos.
Só que o mais importante é dançar porque você curte, por ter prazer de dançar, por que ama a sua dança, só assim você não vai transformar a sua dança em uma coisa fria e sem emoção.

Com é a sua experiência como coreógrafo, quais os elementos que formam uma boa coreografia?
Bom, coreografar é algo muito complexo e exige muito estudo e experiências para realmente se tornar um bom coreógrafo(a) de verdade.
Na minha humilde opinião, uma coreografia deve ter um bom tema para dar início a sua ideia, depois um figurino para saber de que forma você vai trabalhar com suas sequências coreográficas e ter o visual adequado das sequências na hora da movimentação. Tem que ter uma boa trilha musical, que deve ser escolhida com calma e sem pressa. É fundamental criar boas sequências coreográficas, mas não só pensando em movimento, mas também pensando em criar bons desenhos coreográficos, explorando todo o espaço cênico de maneira criativa e dinâmica e tentar fazer uma boa luz para valorizar sua coreografia. Esses são os elementos básicos. Porém, nisso tudo, o mais importante é que você tente desde do começo imprimir uma identidade sua de coreografar, assim, quando as pessoas assistirem seus trabalhos, vão identificar que aquela coreografia é sua. Só assim você vai se destacar dentro de um determinado estilo e categoria.
Agora, existem várias técnicas de se coreografar, que só com um vasto tempo de experiência, errando e acertando, você vai adquirir.

Diversos grupos tentam colocar todos os estilos de danças urbanas dentro de uma coreografia para os festivais. Qual a sua opinião sobre isso?
Não vejo nenhum problema, desde que o coreógrafo e o elenco do seu grupo consiga executar os estilos que estão sendo apresentados dentro da coreografia de maneira correta, com estilo e técnica.
Em uma coreografia, você deve trabalhar com a dança que você realmente domina, e, é importante lembrar, os estlilos de danças urbanas que você, coreógrafo, domina, às vezes seu grupo não sabe executar e aí é que tudo vai por aguá abaixo.
Os coreógrafos no Brasil precisam parar de querer seguir a modinha do ano e realmente ter personalidade e trabalhar com as danças urbanas que sabem dançar, ensinar e executá-las de maneira correta com os seus respectivos grupos. Às vezes é melhor trabalhar com um estilo e executar sua dança de maneira certa.
Muitos coreógrafos querem se realizar através de seus grupos ou de seus bailarinos, seja com um estilo de dança urbana que ele venera ou um estilo de dança urbana que ele não domina, e às vezes isso fica nítido nos festivais de dança quando vou julgar.
Essa pergunta é importantíssima nessa matéria. Parabéns galera do DANCEcast!

Qual seu contato com outros estilos de dança ou manifestação artística?
Bom, o único contato com outra dança que eu tenho é com a dança contemporanêa, mas não faço aulas, é mais um laboratório de observação de coreógrafos(as), grupos e espetáculos de companhias profissionais. Eu fiz 2 meses de Balet Clássico, mas vi que não era a minha praia… (risos). Mas admiro muito a galera do ballet clássico, porque tem que ter uma disciplina absurda.

O que foi o Dancinha de Rua e como era o trabalho com as crianças?
É incrível como até hoje as pessoas perguntam dessa Cia. Fazem sete anos que parei com o projeto por falta de patrocínio.
O Dancinha de Rua foi quem me apresentou ao país como coreógrafo.
Comecei esse trabalho no projeto Dança de Rua, em 1994, como um grupo paralelo, mas logo a Cia. Infantil Dancinha de Rua fez sua história e seguiu o seu caminho sozinha ganhando força, respeito e admiração dentro do cenário da dança no Brasil.
Conquistei 22 primeiros lugares consecutivos nos principais festivais de dança no Brasil com o Dancinha de Rua, e a Cia. se apresentou em oito festivais do país como Cia. convidada.
Em 2001, se não me engano, o Festival de Joinville abriu a categoria júnior, na competição de dança de rua e esse era o único prêmio que eu não tinha como coreógrafo com o Dancinha de Rua. Fui com o nome de Streeteens Cia. de Dança para Joinvile competir, porque o Dancinha de Rua já não competia mais. Fomos com um só objetivo, vencer e ganhar o único festival que não tínhamos competido. E ganhamos!
O trabalho que fazia com o Dancinha de Rua era social, mas com uma proposta diferente que deu muito certo. Tinham crianças não só de periferia, mas de todas as classes sociais, onde eu apresentava valores às crianças de maneira criativa e muito séria. Existia um trabalho intenso que não se resumia só em dançar, as crianças que dançavam na Cia., eram proibidas de tirar nota vermelha na escola, tinham que ter um bom relacionamento com a família dentro de casa e bom relacionamento com as outras crianças que faziam parte do elenco. A ideia do Dancinha de Rua era formar cidadãos através da dança para uma sociedade melhor. E posso falar com orgulho que consegui isso enquanto ela existiu.
Fui o primeiro profissional que fez um trabalho de pesquisa coreográfica com dança de rua para crianças no país e o resultado da Cia Dancinha de Rua nos palcos era impressionante, não só para o público que assistia, mas para mim também, confesso.
Era uma energia muito louca!
Quem sabe um dia eu consiga voltar com a Cia.

Como surgiu a Ray Santos & Cia e quais são os planos para o segundo semestre de 2011?
O Grupo Ray Santos & Cia, nasceu através do programa Mulheres da TV Gazeta em 2005, onde eu dava aulas de hip hop ao vivo de maneira bem básica para galera que assistia em casa.
Através do sucesso do grupo com trabalhos comerciais, comecei a fazer outros projetos, como desenvolver espetáculos profissionais de dança.
Atualmente, a Cia. tem 10 bailarinos e está se preparando para estreia no segundo semestre do seu novo espetáculo intitulado “O Som do Coração”, que tem sete músicos de uma orquestra tocando ao vivo com um DJ soltando beats para o elenco dançar.
Estamos nos inscrevendo em editais, leis de incentivo e nos preparando para 2012 viajar com este espetáculo.
Os meus planos atualmente são: continuar trabalhando firme no meu blog, www.raysantos.com.br/blog, que está crescendo desenfreadamente, começando a criar um relacionamento com artistas da dança hip hop no mundo inteiro; continuar trabalhando no projeto para TV que se chama Hip Hop na Estrada, projeto que já desperta interesse de canais de TV fechado e de grandes produtoras audiovisuais e estreiar o novo espetáculo do Grupo Ray Santos & Cia.

Quais as diferenças que você nota no cenário da dança de quando você começou para os dias atuais?
Muitas! As condições que existem hoje são bem melhores do que antes para se dançar, antes muita gente não olhava para dança como profissão e hoje em dia isso está mudando, mesmo que seja de maneira lenta no Brasil.
Hoje a galera tem informação de maneira rápida e prática, seja através de um site especializado como esse, de blogs, de revistas, de programas de TV ou internet.
Hoje em dia, tem como ver e saber o que está acontecendo no mundo inteiro.
Antes não existia isso.

Na sua opinião, o que falta para a dança obter mais reconhecimento e visibilidade no Brasil?
Acho que o que falta é ter mais profissionais sérios e que realmente saibam o que estão fazendo com a sua arte de dançar.
A nossa galera que trabalha com dança precisa estudar não só a sua dança, mas se especializar em produção de espetáculos e em outras coisas que podem acrescentar na hora de produzir suas obras e é preciso também se posicionar como profissional e não se prostituir para ganhar espaço no mercado de trabalho, prejudicando a nossa classe.
Só assim a dança vai ter mais reconhecimento.
Sobre visibilidade, acho que isso melhorou, sim. Profissionais de dança hoje em dia trabalham dançando em turnês e shows de artistas famosos, dançam em programas de televisão, dançam em eventos corporativos, que cada vez mais cresce no Brasil, dançam em poucas Cias profissionais de dança que pagam salário, e em outros setores que estão abrindo espaço.
Aos poucos a dança vai tendo mais visibilidade.
Para crescer mais o reconhecimento e a visibilidade da dança no país, só depende de nós mesmos.
Tem muita gente querendo sobreviver de dança, mas que não faz absolutamente nada para isso acontecer.

Quais são as suas expectativas como mais novo redator parceiro do DANCEcast?
Muitas! Aceitei o convite, porque acredito no conceito do site e não porque vou ter visibilidade.
Se não acreditasse nas ideias e objetivos do DANCEcast, eu não aceitaria o convite, mesmo que o site tivesse milhões de acesso.
Para mim, vai ser uma honra fazer parte do time de profissionais do DANCEcast, contribuindo com as minhas ideias e visão do que eu acho que acontece com a dança no país.
Será um orgulho trabalhar com vocês!

Deixe sua mensagem para os leitores do DANCEcast.
Acessem todos os dias esse site, que é feito por jovens profissionais que acreditam na dança no Brasil.
Alimentem essa ideia e divulguem para que a dança tenha mais esse espaço para expor seus trabalhos e pesquisas.
Se você quer viver de dança, se dedique de verdade a essa arte e, antes de pensar em dinheiro, fama ou status, pense em propagar a verdade da sua dança e da sua arte.
Só assim você será feliz!