É visível que as modalidades de dança andam cada vez mais interligadas. Não são raros os casos em que acontecem fusões de estilos propositalmente ou até mesmo devido à falta de pesquisa sobre determinada técnica.

A arte, hoje em dia, pela busca inconstante de falar poeticamente, tem se utilizado de diversos meios hibridistas de produção. Vemos intercâmbios entre diversas manifestações artísticas: música, dança, teatro, cinema, artes plásticas, circo. Quanto maior a necessidade de expressão, maior, provavelmente, a busca por novas formas de linguagens/técnicas/estilos.

O espetáculo “Tango Sob Dois Olhares”, da Raça Cia. de Dança, apresentado na Mostra Contemporânea de Dança do Festival de Dança de Joinville de 2010 tratou do clima e ritmo do tango num olhar da contemporaneidade. Outro exemplo, já citado no DANCEcast, é o caso do espetáculo do Grupo Ray Santos & Cia., que mistura dança contemporânea e danças urbanas num espetáculo intitulado “O Som do coração”. É o caso também da Mimulus Cia. de Dança, de Belo Horizonte, que, sob a direção artística de Jomar Mesquita, transita pelos experimentalismos entre dança contemporânea e dança de salão. E por aí vai uma série de grupos e companhias que têm optado por interligar estilos diferentes em um só contexto, sem contar os casos das versões contemporâneas dos milhares de ballets de repertório, da influência da técnica clássica em tantas danças e até mesmo das influências da dança popular brasileira num dos maiores grupos de dança do mundo, o Grupo Corpo.

Muitos intercâmbios parecem dar certo e surgem como uma ferramenta amplificadora da pesquisa que se quer estabelecer. Mas há a constante discussão que envolve a dúvida: até que ponto misturar estilos provoca a perda da essência original dos estilos tratados?

É o que muitos dizem estar acontecendo com o jazz dance. “O jazz está morrendo”, “Isso não é jazz, é contemporâneo!”, “Por onde anda o jazz dance?”, são apenas alguns exemplos das tantas indagações daqueles que dizem enxergar o jazz perdendo sua essência original. Muitos grupos e coreógrafos que começaram com o jazz, hoje trabalham também com dança contemporânea, o que, involuntariamente, produz um pensar diferente na forma de se coreografar. Os movimentos rápidos, precisos, sensuais do jazz, que envolvem força, garra e expressão, começam a aparecer em formas mais desconstruídas, podendo confundir o que alguns chamam de “essência do jazz dance”.

Helena Katz, pesquisadora de dança, pensa que em breve – daqui a cinco ou dez anos, – “desaparecerão as diferenças entre as danças Urbanas e a dança contemporânea seja pelo simples fato das danças de rua terem começado, há muito tempo a envolver gerações, seja porque as mesmas não querem mais continuar dividindo o seu antigo domicílio ou ainda por estar desenvolvendo uma organização técnica cada vez maior, assumindo a maturidade artística da modalidade”. Alguns consideram essa afirmação absurda. Outros param para pensar na possiblidade de que esses intercâmbios fortifiquem-se a ponto de não haver mais diferenças entre estilos e tudo vir a ser considerado apenas “dança”.
Até que ponto ver as modalidades interligadas pode ser bom ou ruim?

É possível que, um dia, tudo vire apenas “dança”, sem definição específica de técnica?

Quais as vantagens de estar aberto a novas experimentações em um contexto híbrido?

Opine. Comente. Dança também é discussão.