Quem é o Marcelo Cirino?

Difícil falar de si mesmo. Mas enfim, me considero um operário da dança, que vivo e sobrevivo dela, pesquiso, estudo. Emergi do zero e alcancei meu objetivo: ver a dança de rua, reconhecida, respeitada com dignidade e admirada por muitas pessoas mundo a fora.

Como foi o seu início na dança?

Após mudar-me para o bairro Jardim Castelo, na zona noroeste, que fica na cidade de Santos/SP em 1982. Fui conhecendo os bailes da região. Tomei a iniciativa de dublar Michael Jackson. Aprendi alguns passos de funk. Incorporei a febre do momento chamada na época de ”breakdance”.
Me chamavam carinhosamente de “minhoca”.
Aos poucos fui ampliando minhas amizades. Gostava de realizar encontros nas praças publicas. Dedicando-me cada vez mais a arte de dançar, estudando-a.
Respirava dança todo momento.

Quem são suas influências no mundo da dança?

As influências se misturam, são baseadas em filmes, vídeos, entre artistas da musica e da dança, que acrescentaram em minhas concepções coreográficas, como: Michael Jackson, Janet Jackson, Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash, Soul Sonic Force, James Brown, 2 Live Crew, Whodini. Tem filmes que marcaram pra mim como: Beat Street, Break Dance, Flash Dance, Breakin 2 entre outros.

Você é a pessoa por trás de um dos grupos de dança mais famosos do Brasil, o Dança de Rua do Brasil, como foi que essa história começou?

Muito obrigado. Após fundar os grupos “Crews”: “The Blackson” e “Gangue de Rua”, em 1983. Tive a oportunidade de trabalhar com a comunidade, ambos os grupos formados por poppers e b.boys de expressão na cidade de Santos. Depois idealizei o Projeto Dança de Rua, aberto ao publico.
Em 1991 surge o grupo Dança de Rua de Santos, grupo misto (homens e mulheres).
Em 1995 o grupo passa por modificações tanto de nome como de integrantes. Passa a ser chamado “Dança de Rua do Brasil”, e com elenco exclusivamente formado por homens , com ineditismo.
Tornou semi-profissional, e depois com sua trajetória se consagrou profissional.

Suzana Amaral: Quais foram as inspirações para a criação daquele estilo único do Dança de Rua do Brasil?

A música da Janet Jackson “rhythm nation” de 1989 resume muito bem uma das minhas inspirações. Na época não tínhamos referencias como hoje em dia com redes sociais e Youtube. Tudo que a mente registrava servia de inspiração.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira até agora?

Estes foram os trabalhos mais marcantes, pois fomos ovacionados:
1993 dançar “Questão de Alma”, no Ginásio Ivan Rodrigues, no Festival de Dança de Joinville/SC. O ginásio veio abaixo, mais de 5mil bailarinos e publico em geral aplaudiram de pé, nossa apresentação. Todos do elenco (misto) choraram, foi inesquecível.
No dia seguinte estava em todos os jornais da cidade e região.
A apresentação pode ser visto no “youtube”.
1998 dançar “Homens de Preto”, no Centreventos Cau Hansen, no Festival de Dança de Joinville/SC, último ano de competição “hour concurs”, 31 homens no palco, 6 (seis) anos seguidos de vitórias, totalizando 27 primeiros lugares consecutivos em competições.
Além desses , o filme “Xuxa Requebra” (2000), representamos os vilões e contribuímos com a choreo “Homens de Preto”.
Realizamos a abertura, dançando no centro do Maracanã, dos Jogos Pan Americanos – Rio Pan 2007.
E não esquecendo jamais que por 15 anos (década de 90), fui um dos coreógrafos, levando o Projeto Dança de Rua, para apresentar-se na Campanha Criança Esperança, da Unesco e Rede Globo.
2012 dançar MIB novamente no Cau Hansen nos 30 anos do Festival de Dança de Joinville, sendo homenageado com 5 placas de pedra na “Passarela da Fama”.
Nenhum grupo de Street no Brasil conseguiu alcançar esses números até hoje.

Como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?

Enxergo com bons olhos, estamos crescendo em todos os aspectos.
Quando todos se conscientizarem que nos abraçando, alçamos voos mais altos, e respeitando uns aos outros, é que podemos alcançar nossos objetivos com muito mais consistência, ética e dignidade.
Muitos ainda brincam de coreografar, como lazer, enquanto outros vivem dessa profissão.
Tudo está muito bem desenhado: existe a dança boa e a dança ruim, como existe o bailarino de boa e de má índole, e isso faz uma grande diferença no resultado da obra”.

Octávio Nassur: O que nosso grande amigo Marcelo Cirino, que abriu as portas para todos nós quando penetrou em festivais de dança e inaugurou o gênero Dança de Rua, percebe de diferente entre a nossa geração, (que trocava camisetas entre grupos nos eventos, entendíamos o respeito de outra maneira, participávamos ativamente de cursos e workshops) e os bailarinos, coreógrafos e diretores de hoje?

Um grande abraço ao meu amigo Octávio Nassur, obrigado por mencionar meu nome em seu livro, fiquei muito lisonjeado e parabéns pelo mesmo.
Antes era mais família, mais unidade, mais consistente, mais respeito, mais tudo.
A internet fez todo mundo se globalizar, e com isso se nivelar também, fez muitos beberem nessa fonte, a originalidade que diferenciava os grupos da época, se perdeu.
O dinheiro é a semente que planta o início de todo mal, e infelizmente com isso, começou a surgir  negatividade. Surgiram muitos oportunistas. Abriu o mercado, tipo “quem é o melhor?” “Eu sou o melhor!”, enfim muitos catedráticos do Street, que vieram pra dividir e não somar.
Vai uma frase de Caetano Veloso que se enquadra bem nesse assunto: “É engraçado a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer”, eu pergunto: a questão é até que ponto?
Eu vejo que as discussões tem uma aparência ideológica, mas é uma cortina de fumaça onde tentam esconder, mas não escondem, que no fundo a briga é pelo poder. E o poder infelizmente corrompe.
Antigamente para se coreografar não tinha tanta referencia, as informações não chegavam nas cidades e comunidades, por isso você via muita autenticidade, agora virou tipo “baciada” o que um faz, todos fazem, não é mais novidade, se perdeu.

Quais as características pessoais de um bom profissional da dança em sua opinião?
Na minha humilde opinião: atitude, sentimento e emoção.
Na mente um computador, no coração uma paixão, no olhar um magnetismo, e o mais importante: disciplina, ordem e respeito, sem essas qualidades as outras são irrelevantes.

Octávio Nassur: De que forma que estão conduzindo seus grupos e para onde querem ir se o sucesso da dança está se tornando virtual e não mais físico?
Não sei onde vamos parar! Muitas pessoas me mandam pela internet espetáculos com muita tecnologia e o conteúdo coreográfico às vezes não é consistente. Sou a favor da tecnologia sim, mas a Dança tem que ser priorizada e enfatizada em seus espetáculos sem perder a essência.

Qual é o seu sonho grande?
Internacionalizar a nossa história e a nossa obra coreográfica que nasceu em Santos, e ganhou o Brasil, fez escola, de uma forma ou de outra levar ao  exterior.

Deixe uma mensagem final aos nossos leitores.
Siga o seu sonho até o fim, não desista, não desanime, não escute a voz dos críticos, às vezes é alguém muito próximo a você, até da família, que lhe subestima.
“Se você quer chegar a onde a maioria não chega, faça aquilo que a maioria não faz” Bill Gates
Mantenha o foco no objetivo, centralize a força para lutar, utilize a fé para vencer e realizar.
Você é bom no que faz???
Fala baixinho.
Controle seu ego. Não seja soberbo.
Trabalhe duro, em segredo,
em silêncio..
Deixe o Sucesso do seu trabalho fazer um estrondo!..
Quando você estiver pronto, o Homem, no tempo Dele, te projeta!..
“quem mais atrai atenção no lugar, é o mais fraco”..
frase do filme: Gangster
Respeito e Honra
Sucesso e Paz.