Ivo Thadeu Batista de Alcântara, mais conhecido por “Ivo Alcântara” nasceu em setembro de 1980 em São Paulo (capital). Atualmente é coordenador e diretor do grupo Chemical Funk, dançarino do grupo Freestyle Force (Mogi das Cruzes), representa os coletivos D.M.L.C e WaackIt. Está cursando o Ensino Técnico de Dança na ETEC de Artes de São Paulo (Centro Paula Souza). Viaja o país ministrando workshops e atua como jurado em eventos de renome nacional. É idealizador do evento Identidade Hip Hop (São Paulo).

Com quais estilos de dança você está envolvido?
Sou um grande admirador de todos os estilos de “Dança Urbana”, gosto de dançar de tudo um pouco, me arrisco por diversão nas rodas e festas. Apesar de fazer aulas de Popping, B.Boying, House, Waacking, foi com o “Locking” que me identifiquei e, através do trabalho que desenvolvo com o grupo Chemical Funk, obtive o reconhecimento nacional. A dança “Hip Hop” também esteve sempre presente e está ligada a minha identidade e, hoje, a pratico juntamente com os integrantes do grupo de estudos D.M.L.C (São Paulo) e do grupo Freestyle Force (Mogi das Cruzes).

Como foi o seu início na dança?
Meu início foi em 1993, no bairro do Jardim Brasil – Zona Norte de São Paulo. Através dos “passos marcados” dos dançarinos nas famosas “quermesses” (Festas de Rua). Foi meu primeiro contato com o mundo da dança, onde aprendi e desenvolvi o que os jovens chamavam de “Lagartixa” (Dança Social, com herança do Soul/Funk, popularizada em casas noturnas e quermesses de São Paulo). Fiz parte de alguns grupos, nos quais disputei vários concursos locais e conquistei pequenos prêmios.
Em algumas casas noturnas, arrisquei alguns movimentos com a galera do “Breaking” (garotos que giravam no chão com suas manobras radicais em alta velocidade).
Durante este mesmo período, dançávamos imitando o que tínhamos como referência nos canais de televisão, como os cantores MC Hammer, New Edition, Vanilla Ice e Michael Jackson. O que, na época, já gerava uma grande confusão ao classificarmos nossa dança como “Street Dance”, “Break Dance”, “Funk Dance”, “Hammer”, “Balanço”, “Rap”, entre ouros termos. Uma verdadeira “bagunça”.
Foi justamente essa “bagunça” que me incentivou a procurar respostas sobre este movimento cultural e que até os dias de hoje estou envolvido.

Quem são as suas inspirações na dança?
A lista é grande, porém, primeiramente posso destacar nomes que não estão na boca do povo, mas foram as primeiras pessoas a me contagiar com o prazer da dança: Luiz Roberto Anunciação (Betão), Alex Lisboa (Chorró), Wilson Cordeiro (Wilsão), Maurício e Leandro Gomes, Sandrão e Carlinhos (Edu Chaves).
Destaco aqueles que tiveram grande responsabilidade na minha formação pessoal: Rosaira Conrado, André Pires (RockMaster), Michel Martins, Cleiton Alves (K-Jú), Amanda Damásio (Angel), Kléber de Paula e Tatiana Sanchis.
Alguns que admiro e que durante algum tempo foram minha escola: Edson Guiú, Henrique Bianchini, Frank Ejara, Flip Couto e Eduardo Sô.
Outros dançarinos pelas suas identidades: Gabriel Bila, Fran Manson, Vini Azevedo, Toshiba, André Bidú, Cris e Juju Ramos, Pikolé, Mr Fê, Mr Jeff, Jaspion, Popper Paulinho, Poppin Ley, B.Boy Rico, B.Boy Andrézinho, B.Boy Neguin, B.Boy Pelezinho e B.Boy K-Belo.
E todo o esquadrão Chemical Funk: Boogaloo Begins, Nathalia Glitz, Popping D, Zildo Aparecido, Marcio Alves, Tadeu Santos, Evandro Smile, Marcus Chorro, Leandro Fukuzawa.

Quando você começou a levar a dança como profissão e como foi para se estabelecer?
Sempre levei a dança a sério independente de ganhar dinheiro. Tinha na minha cabeça que ser um profissional estava diretamente ligado a minha conduta como dançarino. O respeito, a disciplina e a dedicação eu aprendi desde o meu início com os grupos de bairro. Por isso, cuidava da dança como uma profissão. Por muito tempo, ensinei sem ter uma remuneração, ministrava aulas para o meu grupo e para a comunidade voluntariamente, somente pelo prazer. Só em 2004, fui convidado a dar aulas em uma academia chamada Danúbio Azul (Vila Sabrina – Zona Norte – São Paulo) e lá pude ganhar os meus primeiros trocados com a arte, mesmo assim mantinha-me em meu emprego registrado como auxiliar de escritório. Em 2005, fui demitido de meu trabalho, criando coragem de me arriscar pelo lado artístico. Gravei alguns vídeo-clipes, fiz alguns comerciais, trabalhos em festas e consegui mais academias para lecionar. Em 2007, ampliei meu foco ao passar em um edital público para ministrar aulas em projetos, percebi que tinha estudo suficiente para engrenar nesse tipo de trabalho. Atualmente, consigo viver apenas com dança, viajo ministrando workshops em eventos pelo país, trabalho em projetos públicos e apresento temporadas de espetáculo com o Chemical Funk.

Você é diretor e coreógrafo do Chemical Funk. Como foi o início do grupo? E qual a visão dele?
O ano de 2005 foi uma fase onde me vi praticando bastante a dança Locking. Eu, Zildo Aparecido e Marcio Alves éramos dançarinos do grupo Ritmos B.A.S.E e lá aproveitávamos os intervalos de nossos ensaios para praticar algumas bases e criar diversas “routines”. O interessante é que neste mesmo período, me identifiquei com algumas pessoas, que no caso, foram: Tiago Meira (Boogaloo Begins), que era meu aluno na época, Nathalia Glitz, vinda de Porto Alegre para integrar o grupo Ritmos B.A.S.E. fazia aulas periódicas de Locking com Frank Ejara, Tadeu Santos (dançarino e coreógrafo do grupo Crazy Jam – Ribeirão Preto – SP) e Diego Oliveira (Popping D) que na época dançava em um grupo de Mogi das Cruzes chamado “Top Lockers”.
Todas essas práticas e pessoas me inspiravam. Tínhamos em comum a amizade e a paixão pela dança Locking, uma química perfeita.
Em 2006, convidei-os a participar de um projeto que se chamaria F-Unit (Unidade Funk) ou Chemical Funk (A Química Funk). O projeto deu certo e a aceitação do público da dança urbana foi positiva.
O projeto se consolidou em um grupo, que tem como filosofia difundir a “Dança Urbana” em suas diferentes manifestações, seja nas festas, rodas, batalhas, apresentações artísticas, ministrando aulas, etc.
Hoje acompanhamos os principais eventos e acontecimentos deste movimento cultural.

O Chemical foi destaque na segunda temporada do “Qual é o seu talento?”.
Como foi essa experiência para vocês e a repercussão que obtiveram?
Fomos convidados a participar da segunda temporada “Qual é o seu Talento?” pela própria produção do programa, que havia ouvido falar de nosso trabalho. Encaramos o convite como uma oportunidade de outras pessoas conhecerem nosso trabalho.
Na primeira fase, apresentamos uma coreografia chamada “Let Your Feeling Show” (criada em 2008). E não fomos com a pretensão de passar para a próxima fase do programa, mas sim tornar a dança Locking e o grupo Chemical Funk mais populares. De repente, a surpresa e a conquista de uma vaga para a fase “semifinal”. Eu, particularmente, não tinha idéia de como iria repercutir nossa aparição. Só quando vi minha caixa de e-mails cheia e o número de convites de pessoas pendentes nas outras redes sociais, tomei noção do ocorrido.
Já para a segunda fase preparamos algo especial e inédito, fomos a fundo na pesquisa e resolvemos trazer uma coreografia com o tema de “Chemical Funk Band”, fazendo uma homenagem aos tempos mágicos do Soul/Funk no programa norte-americano “Soul Train”. A inspiração ficou por conta de bandas como Temptations, The Silvers, Kool & the Gang e em especial Earth, Wind & Fire. Colocamos em cena uma coreografia ousada, com cortes de cabelo de época, figurino confeccionado com muita elegância, projeção em vídeo, além de investigarmos e reproduzirmos a movimentação corporal dos integrantes (músicos) de uma verdadeira banda. Não passamos para a próxima fase, mas nossa apresentação foi um sucesso e posso afirmar, em nome de todo o grupo, que o que ficou dessa participação foi uma tremenda experiência e que ficamos felizes com o resultado de nossa criatividade e ousadia.

Na sua opinião, como está o nível da dança Locking no Brasil?
Falando do que vi e vivi dentro da dança e apesar de não ter ido muito longe, tendo a oportunidade de conhecer apenas Bolívia, Paraguai e Uruguai, acho que o Brasil não deixa a desejar para os outros países, pois posso citar uma lista de vários dançarinos que são referência neste estilo. Conheço bons Lockers em outros estados, como Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e por aí vai. Só em São Paulo, hoje, a lista é enorme. O problema do país é a super valorização do que é “gringo”. É claro que temos grandes dançarinos estrangeiros, isso é fato, mas hoje temos dançarinos nacionais que são referências mundiais.

Qual sua relação com outras formas de arte?
Sempre fui viciado em cores desde pequeno e adorava ler e desenhar. Infelizmente, não consegui me dedicar às artes plásticas. Mas trabalhando com projetos públicos tive a oportunidade de fazer parte do PIÁ – Programa de Iniciação Artística, onde eu trabalhava simultaneamente com profissionais de outras áreas (Música, Teatro, Artes Visuais), desenvolvendo atividades artísticas com crianças de 6 a 14 anos.
Tive muitas vontades em minha infância por isso gosto de usar uma citação de minha própria autoria, que resume essa a paixão pela arte:

“Quando criança sonhei ser um astronauta”.
E jovem, quando conheci a dança, percebi que poderia viajar por mundos desconhecidos. Não pelos meios convencionais, mas através dos traços e cores que invadiam a minha mente quando me via em ação…” (Ivo Alcântara)

Como foi batalhar contra a sua namorada na final de Locking do Encontro das Ruas 2010?
Na verdade, em 2007 tivemos uma experiência muito parecida. Foi no 7º Campinas Street Dance Festival, onde participamos das batalhas 2×2 no estilo Locking. Onde eu, juntamente com meu parceiro Boogaloo Begins, na fase eliminatória, enfrentamos nossos colegas de grupo Tadeu Crazy & Nati Glitz. A sensação foi parecida, mas desta vez eu e minha dupla tomamos bucha.
Já no Encontro das Ruas, a coisa foi diferente, além de ser uma final, a pressão era outra.
Foi um misto de alegria e tristeza, pois só um podia ganhar. Eu já estava super feliz por esse acontecimento, mas no momento em que ouvi os nossos nomes sendo solicitados na arena, a coisa mudou. Vi vários “flashs” desde o início do grupo, da minha carreira e também do nosso namoro. Foi emocionante. Lembrei de quando a convidei para o grupo, entre outras coisas. Ela representa muita coisa em minha vida.
Mas na batalha você não pode deixar o seu emocional abalar. Lembro-me do que falamos minutos antes de nos enfrentarmos: “Vai pra cima!” “Não dá moleza!” “É seu momento!”. Este será um fato inesquecível com certeza e que iremos levar isso pro resto da vida.

Qual seu maior sonho e quais os planos para 2011?
Sonhos…eu tenho vários. Mas, em relação à Dança Urbana, gostaria de um dia ver as coisas um pouco mais organizadas. Que o profissional da dança seja mais valorizado. E que o “ego” não tome conta das pessoas. Quero juntamente com meu grupo poder trabalhar viajando o mundo fazendo intercâmbio com outros dançarinos.
Para 2011, aguardem novidades. Temos vários planos e gostaríamos de colocá-los todos em prática.

As Danças Urbanas hoje em dia estão em alta na mídia. Vemos isso em várias propagandas, programas e afins. Até que ponto isso é interessante para os “reais” integrantes desse meio?
Como em todo segmento, a dança também tem os seus oportunistas, pessoas que querem se promover, ganhar dinheiro e não medem esforços para aparecer. Não dando o devido crédito aos pioneiros e precursores.
Mas também não podemos negar que a mídia é importante para que a cultura cresça. Podemos citar exemplos dos primeiros filmes que surgiram e que fizeram a dança virar febre: “Beat Street”, “Breaking”, que geraram uma grande confusão em relação a termos e nomenclaturas e que foram os responsáveis para que muita gente conhecesse a dança aqui no Brasil. Não temos o total controle sobre isso, a mídia sempre estará presente.

No Brasil, a dança Locking, comparada com outras danças urbanas como o Hip Hop e House, tem menos adeptos, o que você acha que leva a esse fator?
Isso é um tópico que sempre está presente em nossas discussões. Creio que vários fatores contribuíram e ainda contribuem para esse diagnóstico. Há pessoas que afirmam que o Locking está morrendo. “Afs!” A real é que não podemos afirmar nada até então, por isso prefiro acreditar que as pessoas possuem opiniões e gostos divergentes. Tendo menos adeptos ou não, o Locking é a dança que me faz feliz e, se depender de mim e do Chemical Funk, ela vai estar sempre viva por onde passarmos.

“Se a gente cair, o Locking nos ensina que depois de um “Split” ou de um “Knee Droop” a gente é capaz de subir com muito estilo!”

De acordo com sua experiência na dança, o que você diria para quem está começando e um dia quer viver dessa arte?
Qualquer profissão irá te exigir um grau de estudo e vivência. Com a dança não é diferente, portanto estude, aprecie e aprofunde-se nos conceitos históricos e práticos. Valorize a sua identidade. Seja respeitado pelo que você é. Fuja dos resultados rápidos. Pratique e se dedique. Respeite os criadores, pois sem eles não teríamos as danças urbanas. Mantenha a essência e não seja artificial.