Há várias formas de se entregar à improvisação. Umas delas, a mais mesquinha, é aquela na qual há a simples falta de um coreógrafo. Lamento informar, mas foi assim que me aproximei da dança enquanto improvisação. Aos 13 anos, pela primeira vez, fui jogada sobre um palco e, movida a partir de uma pesquisa pouco pincelada, encarei o desafio de improvisar perante um platéia inteira.

Hoje, depois de passado alguns anos de constante pesquisa, ainda posso afirmar que improvisação é uma das coisas que mais gosto de fazer quando se trata de expressão artística. Improvisar é estar consciente e inconsciente ao mesmo tempo. É ter noção do que se faz, concomitantemente a não saber o que se está fazendo. Improvisar é se utilizar de vivências. De insights. De repertórios corporais pré-estabelecidos. Improvisar, ao contrário do que muita gente pensa, não é para qualquer um. Mexer o corpo de um lado para outro, correr saltar e pensar, que, só porque está inventando tudo na hora, é improviso é coisa de quem não sabe nada. E para improvisar tem que saber. Pelo menos alguma coisinha desta vida! Porque para improvisar é necessário uma somatória de momentos já vividos, milhares de histórias para contar e uma necessidade monstruosa de estabelecer contato com qualquer segmento que for, através desta comunicação propícia a quem quer conversar através do corpo.

Linguagem poética, estética ou não, a improvisação em dança nos liberta. Particularmente, um movimento improvisado soa mais verdadeiro que muitos coreografados, porque improvisar é presente. E presente num sentido ambíguo. É presente de agora, de momento, em que na criação não há tempo para pensar duas vezes. Ao mesmo tempo em que aquele que improvisa é um grande presenteado. Poderia ficar horas contando do quanto me tornei uma pessoa mais segura, autoconfiante, ousada e criativa depois que comecei a improvisar. Confiar apenas em si mesmo, nas bagagens de seu próprio corpo e na explosão emocional que bombardeia a alma do bailarino é um desafio. E que desafio! Mas, felizmente, um desafio que me alimenta e me faz querer improvisar mais e mais. Desde a uma improvisação coberta por holofotes e milhares de olhares até uma improvisação para o simples pegar um lápis que cai no chão. Dançar a vida, a cotidiano, o agora: eis o grande barato desta corrente da dança contemporânea surgida no início dos anos 70 e que continua freqüente e cada vez mais desafiadora até hoje.

O que penso enquanto estou improvisando? Nada. Apenas sinto. Pois improvisar é sentir. E sentir é querer improvisar mais e mais…até que meu corpo me conduza, quase que involuntariamente, a improvisar mais uma vez, só se calando na hora de começar de novo.