Gabriel Woelke Santinho, também conhecido como Bila ou Gabriel Bila. Tem 23 anos de idade e 16 anos de dança. É, primeiramente, um amante da arte em geral e um integrante da cultura das street dances. Dançarino, coreografo e professor.

Quais os estilos de dança com que você trabalha?
Bom, dentro da minha cidade, trabalho com quase todas as principais danças urbanas (hip hop, house, popping, locking, wacking e breaking). Em workshops pelo país, foco mais na dança house, dança com a qual construí minha carreira na cena nacional.

Como você enxerga a situação/nível atual dos dançarinos desse estilo?
Eu acho o Brasil ótimo, nunca fui pra fora do país, mas já viajei muito dentro da minha nação e sempre encontro pessoas fantásticas. Sou muito fã dos dançarinos daqui e são eles que me inspiram e me ensinam. Acho o Brasil uma potência em Dança Urbana. Meu amigo Frank sempre dizia: “não temos que ficar focado em apenas ir pra fora dançar, fazer aula, etc… o Brasil é muito bom e temos que dar valor a isso, nem tudo que vem de fora é bom, nem tudo que é dos gringos é certo…”. Hoje vejo que os próprios brasileiros têm vergonha do seu povo, não respeitam sua própria gente. Vejo um amor e um encanto muito maior a pessoas que vêm de outros países e às vezes não fazem nada pelo Brasil do que um respeito a um brasileiro que faz a cena crescer todo dia, trabalhando, se dedicando e evoluindo à cultura. Isso é triste, mas ainda temos tempo para mudar, sou da nova geração e essa geração está caminhando bem unida pra fazer do Brasil um dos países mais respeitados nessa área.

Como foi o início de sua carreira?
Comecei dançando jazz, quando tinha uns 8 anos. Lembro que tinha um show do Michael Jackson gravado em uma fita e assistia todos os dias, ficava na frente da TV copiando os passos. Certo dia, minha mãe resolveu me colocar em uma academia, na época não existia street dance, então fiz uns 2 anos de jazz. Depois disso, saí dessa academia e comecei a dançar ouvindo as bandinhas da época. Quando cresci um pouco, comecei a freqüentar uma boate toda sexta feira, ia lá só para dançar, não ligava para nada. Só ficava na pista fazendo os passinhos com minha “trupe”. Com uns 10 anos de idade, conheci Fran Manson, somos vizinhos e ela também freqüentava a mesma boate. Um dia ela me chamou para fazer parte de um grupo em uma escola particular, escola na qual ela estudava, eu era o único integrante do grupo que não estudava lá, fiquei mais ou menos 2 anos lá dentro e aprendi muita coisa com minha professora Caroline Guimarães. Depois que saí desse grupo, fui dançar no Oficina Hip Hop, grupo bem famoso no país. Fui aluno do Henrique Bianchinne e Gi Togashi por muitos anos. Depois que o Henrique mudou para a capital e a Gi parou de dançar, eu assumi o grupo e anos depois montei junto com 6 amigos a Cia. waziMu!

Falando em carreira, quando a dança virou uma carreira para você? E agora o sentimento é o mesmo de quando começou?
Comecei a dar aulas quando tinha 15 anos, era totalmente diferente a forma de se dançar aqui no país, não tínhamos tanto acesso a informações como temos hoje, então as aulas eram ruins e bem cruas, mas serviu muito de aprendizado para mim. Dou muito valor à didática em uma aula, acho que se nos submetermos a ensinar algo, temos que fazer isso com a maior clareza possível e conseguir transmitir o máximo do assunto. O sentimento ainda é o mesmo, na verdade, aumenta a cada dia, cada vez gosto mais de dança e gosto mais de ensinar, me divirto muito com isso e não tem sensação melhor do que a de ver que alguém aprendeu algo com você, além de eu aprender muito com todos os meus alunos também. É ótimo.

Existem rumores que você é um novo membro do D-efeitos. Isso é verdade? E se for como foi que chegou a fazer parte e quando será a estreia?
Não sou novo membro. Já faço parte há algum tempo, apenas não estou nos shows que eles apresentaram até agora. Conheço o Bidu há uns 8 anos mais ou menos, freqüentei muito a casa dele e treinei e aprendi muito com ele, é um grande amigo e uma grande referência para mim. Bidu sempre teve um carinho e uma admiração por mim, porque crescemos muito junto na dança, eu sei que ele confia no meu trabalho e acredita no meu potencial. Antes de fazer parte do D-efeitos, eu já fazia parte da Família Funk Fanáticos, grupo que o Bidu também criou, bem antes de existir D-Efeitos. Minha estreia com eles não irá ocorrer tão em breve, eu acredito, talvez apenas em alguns clipes pro Youtube ou algumas sessions por aí. Um novo espetáculo está saindo do papel e sendo criado, mas isso é coisa que não posso comentar, faço parte dessa idéia e estarei presente sempre que possível, prefiro deixar no ar…

Qual seu contato com outros estilos de dança ou manifestação artística?
Esse ano pretendo voltar a fazer jazz, admiro muita esse estilo e gosto da energia. Pretendo estudar um pouco de dança contemporânea e também conhecer algo da arte circense. Sou muito eclético, gosto de tudo que me toca de alguma maneira, gosto do que me faz pensar e refletir, gosto de ideias inovadoras, clichês. Enfim, gosto da arte em geral.

Quem são suas inspirações no mundo da dança?
Primeiramente, todas as pessoas que fazem parte do meu cotidiano e todo tipo de coisa em que posso absorver algo, não necessariamente pessoas, qualquer coisa mesmo (risos). Vou dizer alguns nomes: toda minha Cia., Fran Manson, Vini Azevedo, Pedro Henrique, Renato Chorão, Marcos e Zick. Meus professores: Henrique Bianchinne, Frank Ejara, Edson Guiu e Rockmaster Pires. A nova geração que vem com tudo: André Bidu, Márcio Alves, Kleber de Paula, Pikolé, Toshiba, Ivo Alcântara, Neguin, entre outros. De fora do país: Brian Green, Suga Pop, Meech Onomo, Buddha Stretch, Henry Link, Caleaf Sellers. Gosto de muita gente e todos eles me inspiram.

Como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?
Depende, se tiver persistência e sorte pode-se fazer sucesso e até ganhar um dinheiro legal, não ficará rico, isso é fato, mas conseguirá viver até com um certo conforto. Porém, a maioria não vive isso, grande parte trabalha em academias, escolas ou projetos de prefeitura. É difícil e tem que ser muito cabeça para tentar viver disso. Se você esperar muito dessa profissão, pode acabar frustrado e perder totalmente o gosto e o real valor da dança que é a diversão.

No ano passado, você foi convidado para ser jurado do Encontro das Ruas do Festival de Dança de Joinville, o maior evento do gênero no Brasil. Como foi essa experiência?
Foi demais, me lembro de estar em 2005 no festival e começar a arriscar uns passinhos de House na roda junto com Frank e Guiu. Cinco anos depois, volto para o mesmo festival para ser jurado da batalha de House, me senti muito bem e muito feliz, foi um marco em minha vida e espero poder retornar lá muitas vezes. Agradeço muito a meu amigo André Pires e Frank Ejara, que me ajudaram muito nesse trabalho.

Que diferença você destaca ao comparar a vida profissional de dança do Brasil e no exterior?
Não conheço o exterior, como disse nunca viajei para fora do país. Tudo que conheço é de vídeos e informações que escuto de pessoas que já foram. Sei que a vida lá também é difícil, não é todo mundo que faz sucesso ou que ganha dinheiro. Em todo lugar, se você não lutar, não terá nada. Talvez, lá tenha mais mercado, talvez a dança seja mais valorizada, enfim, em todo lugar você sempre vai encontrar pessoas com talento sem trabalhar e pessoas oportunistas e sem talento trabalhando. De quem é a culpa? Fica a pergunta.

O que você acha dos “Internet Dancers”?
Não dou muita bola para isso, prefiro não ligar e simplesmente deixar que eles mesmo se prejudiquem. Eu adoro escrever textos no facebook, adoro debater assuntos, conversar sobre dança e trocar ideias e informações. A internet é um bom meio para isso, mas o problema é quando só se fica nisso, quando não se sai de casa para dançar e fica apenas escrevendo e criticando, vendo vídeos e se auto intitulando dançarinos formados, professores, pensadores, etc. Enfim, a verdade sempre aparece e na roda ninguém mente.

Como foi a experiência de participar do “Qual é o seu talento” com o Wazimu? E qual a repercussão que teve para o grupo e para sua carreira?
Foi muito legal ter ido ao programa, levamos algo bem inovador para televisão, eu gostei muito da aceitação das pessoas leigas no estilo. Conseguir chegar até essas pessoas e agradá-las é difícil. Já fui para o programa realizado com meu trabalho e satisfeito com todos os resultados que ele trouxe. O programa só foi uma forma de mostrar para todos os cantos do Brasil, boa oportunidade que não deixamos passar em branco, acho que valeu muito para mim, para o meu grupo e para todos que assistiram.

O Wazimu é um nome bem diferente para um grupo, tem um significado especial?
Wazimu vem do dialeto africano Swahili, significa loucura. Não existe palavra melhor que essa para descrever o grupo, o sentido de loucura é muito amplo e acredito que a gente se encaixa em todos.

Há quanto tempo o grupo Wazimu existe e o que ele significa para você e sua carreira? Quem são os seus integrantes? Há projetos para 2011?
Wazimu nasceu em abril de 2007, waziMu não só significa algo na minha carreira, waziMu é minha carreira toda, o grupo que me fez chegar onde estou, as pessoas que estão nele, a ideia, a vivência, é uma representação muito forte em minha vida, ele deu vida a muita coisa e me fez acreditar em coisas que eu achava que não poderiam nunca rolar, é algo único. Os 7 criadores são: eu, Fran Manson, Vini Azevedo, Pedro Henrique, Renato Chorão, Marcos e Zick. Em 2010, eu coloquei algumas pessoas no elenco, de início era apenas para dançarem em um show que eu queria criar, mas agora acredito que eles todos já fazem parte desse “WAZIMUNDO”. As pessoas são: B.Boy Major, Fábio Merlin, Júlio Segato e Patrick. Não tenho padrão e não sigo linhas, gosto de fazer o que tenho vontade de fazer. Às vezes, saio do padrão urbano, mas não ligo para isso…wazimu é um grupo de experimentação, fora ele tenho trabalhos que são totalmente voltados para a dança urbana, então deixo pro wazimu fugir desses temas que já são manjados de se ver. Gosto de passar alguma mensagem, seja ela qual for, mas que seja de uma forma sincera.

Até que ponto o dinheiro ajuda e atrapalha a arte da dança?
Dinheiro atrapalha? Se atrapalhar, você pode me dar que eu ficaria muito feliz em te ajudar (risos). Brincadeira. Não é o dinheiro que atrapalha as pessoas. Um pedaço de papel não faz um caráter mudar, você pode ter muito dinheiro e ser muito correto com a arte e com a vida, como pode não ter nada e ser um sacana com tudo. Quem é artista não pode se focar em dinheiro, até porque ele é difícil de chegar e, quando chega, logo corre para as mãos de outros, como donos de eventos, inscrições para batalhas, inscrições pra workshops, etc… Utilizando o dinheiro para fazer algo bom, bom para você e bom para outras pessoas, ele sempre será bem- vindo.

Qual seu maior sonho profissional?
Nossa, muitos… minha mente não para um segundo, tenho diversos planos, vontades, objetivos, mas acho que o principal agora é eu me sentir bem comigo mesmo, me sentir fazendo algo que tenha valor para alguém, continuar com meu trabalho, continuar criando, ensinando e, claro, continuar dançando, sem perder a raiz, sem esquecer de quando eu ficava imitando o MJ na frente da televisão. Reviver todo dia aquela sensação é meu maior sonho, com certeza.

O que você sente que falta no cenário das danças urbanas no Brasil?
Primeiro, respeito com os mais antigos, com quem veio antes da gente. Depois, entender que para chegar a algum lugar é preciso construir algo que realmente tenha algum sentido dentro dessa cultura, dançar em rodas, batalhar, coreografar, montar espetáculo, debater sobre a dança, implantar ideias boas. Fazer aula por status e ficar na internet não engrandecem a dança, se continuar assim, logo menos ficaremos extintos.

Se pudesse gritar ao mundo da dança uma frase, o que gritaria?
Deixe o beat rolar, porque eu ainda não terminei a minha session.