Quem é o Frank Ejara ?
Dançarino, coreografo, produtor musical, diretor e acima de tudo um entusiasta da cultura urbana e todas as suas faces.

Como foi o seu início na dança? E quem são suas influências no mundo da dança?
Meu inicio foi com minha mãe. Aos 7 anos idade ela começou a me ensinar alguns “passinhos de baile” (danças sociais). Ela nunca foi profissional mas tinha muito talento. Eu e ela chegamos até a ganhar uma competição de dança no inicio dos anos 80 em um club.
Minhas maiores influencias no mundo da dança são: Don Campbellock , Greg Campbellock Jr., Boogaloo Sam, Popin Pete, Rock Steady Crew.

Quando decidiu levar a dança como profissão e como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?
Eu decidi quando vi a companhia de Dança Americana Ghettoriginal. Em 1996 eles vieram a São Paulo e quando vi o espetáculo deles comecei a sonhar em fazer parte de uma Companhia como aquela. Depois de muito tempo, vi que não ia acontecer e dai então criei a Discípulos do Ritmo.
Acho a vida do profissional de dança URBANA no Brasil equivocada. Por alguma razão que não sei exatamente, todo mundo acredita que a única forma de se virar profissional e viver da dança é dando aulas. Isso trás muitos problemas e o maior dele é termos gente nova demais nessa função, despreparada e sem conhecimentos para assumir a posição de professor.
Então, se olharmos nesse aspecto, a profissão é desgastada, é “quase” sem futuro, pois a concorrência é desleal. Todo momento tem “professores” novos, que se tornam a novidade e colocam os valores de cachê lá embaixo para entrar no mercado, fora o aspecto da formação que é prejudicada.
Mas se olharmos para todo universo profissional que um dançarino pode explorar, chegaremos a conclusão que ha muito o que se fazer e pouco foi feito.
Conceber espetáculos, coreografar, dançar para artistas, investir no meio publicitário, etc. Tem muito campo que poucos estão trabalhando, pois o imediatismo das “aulas” é o grande atrativo para quem quer “viver” de dança. Em nenhum outro estilo de dança acontece isso, não como acontece nas Danças Urbanas.
Mas não vou culpar somente o dançarino que quer viver de dança, culpo também os donos de estúdio e realizadores de eventos que contratam. Pois não se preocupam com a formação desse individuo e sem pensar na nossa cena coloca os para dar aulas.

Qual é o caminho para alguém se tornar um bom popper, locker, “dançarino urbano”…? Você acredita que a internet tem de alguma forma influenciado negativamente nesse processo?
O caminho é se entregar se estiver apaixonado, firmar um relacionamento com o estilo que decidiu, pois esse relacionamento tem que ser pra vida toda. Não se pode escolher um estilo de dança por conta da moda ou tendências das competições.
Depois disso, se dedicar, procurar aprender com quem sabe algo que você não sabe, e isso pode ser qualquer um, não precisa ser exatamente um “professor” na sala de aula. Acredito que a internet tem o papel da TV na minha época, ela apresenta facilmente as danças aos iniciantes. Nesse ponto acho positivo.
O lado negativo que a internet em geral traz é o imediatismo. As pessoas querem ficar famosas rápido e quando assistem incansavelmente um vídeo no youtube ela acredita absorver a historia e técnica daquele dançarino mas isso não acontece.

Um dos nossos leitores perguntou sobre as danças da moda do Youtube, Melbourne Shuffle, Free Step,…? Qual é a sua opinião sobre elas?
Eu não acompanho esses estilos mas o que posso dizer é, acho ótimo que sempre tenha algo novo surgindo no mundo da dança. E se realmente for novo, se tiver uma cultura em torno desse novo estilo e isso desenvolver de forma sadia eu acho que tem que ser apoiado.
Quando as danças que eu pratico apareceram tinham outras na cena e esses estilos foram acolhidos e assim puderam se desenvolver. Por isso temos que apoiar.

Há poucos anos atrás o Festival de Dança de Joinville alterou o nome da categoria de “dança de rua” para “danças urbanas”, você estava envolvido nessa mudança? Qual é a importância disso ?
Eu não estava envolvido diretamente, mas acredito que possa ter sido reflexo do que tenho pregado em relação ao meu trabalho com a Discípulos do Ritmo.
Talvez para o leitor entender melhor, por favor, leiam esse artigo:
http://frankejara.blogspot.com.br/2011/10/o-novo-termo-dancas-urbanas.html

Lembro que quando você era curador do Encontro das Ruas entregava fichas com diversos critérios para os jurados avaliarem nas batalhas? Quais eram esses critérios e como julgar uma batalha de forma justa na sua opinião?
A tentativa com os critérios foi exatamente de tornar as batalhas mais justas.
Acredito que apenas apontar pra quem você prefere não é justo, pois não ha como nem o ganhador ou o perdedor terem a noção exata porque ganharam ou perderam.
Mundialmente falando, eu acho as batalhas muito amadoras. Ha muita grana envolvida e traz um grande publico mas os julgamentos não são transparentes.
Muito tentaram me convencer que “dança”, “arte”, não se julga e isso é subjetivo mas se ha o evento, se ha o seguimento competitivo, acho que tem que ser tratado com seriedade e ir pra um próximo nível.
As batalhas chamadas “call out” sempre vão existir, pois é a essência da cultura das Danças Urbanas. Sem jurados, sem quantidade de rounds, sem tempo, apenas pelo desafio e “honra”.
Mas quanto aos eventos é diferente, eles precisam respeitar os competidores.
Acredito que o encontro das ruas foi o primeiro no mundo a oficializar essa forma de julgamento.
Tive esse feedback dos jurados internacionais.
Na época me lembro que tínhamos pontuações para Ritmo, Fundamentos, Criatividade e Presença de batalha, acho que eram esses.

Um dos nossos outros leitores perguntou sobre a sua participação em competições no exterior. Você já participou de alguma? Como foi?
Sim, participei de algumas e não foram muitas e foi divertido.
Participei em 2003 do LE BATTLE na França na categoria Locking e venci junto com meu parceiro Jeff.
Em 2004 participei do BBoy Summit em Los Angeles no Popping e cheguei até as quartas.
Em 2006 eu e Jeff conseguimos vaga no Juste Debout no Locking e Popping, numa eliminatória para 2 vagas disputadas com dezenas de duplas de todo mundo, então ganhamos a vaga e acho que até hoje nenhuma outra dupla se classificou para os 2 estilos no evento.
Em 2006 fui convidado para participar do UK Champs no Popping.
Em 2009 cheguei a final do Who is Who em Paris no Locking.

Qual é o seu papel na Cia. Discípulos do Ritmo e no Grupo D-Efeitos ?
Na Cia. Discípulos do Ritmo eu sou o fundador e diretor artístico, já no D-Efeitos eu sou um apoiador incondicional. Acredito no projeto do Bidu e tudo que esta ao meu alcance eu faço para eles conquistarem mais espaços.

O que o Frank Ejara gosta de ouvir e o que indicaria para os leitores do DanceCast ?
Eu gosto de varios gêneros musicais, desde o passado até as coisas mais novas e “modernosas”.
Funk 70, 80, Hip Hop, R&B, House Music, Jazz e alguma coisa Pop dos anos 80.
No momento estou ouvindo o novo álbum do Craig G, mas é assim, cada dia um som, cada dia uma inspiração pra ouvir algo… Depende do estado de espírito.
Pergunta do Boogaloo John: hoje em dia, a palavra “viver” e também a idéia de cultura estão sendo alvos de bastante confusão entre os dançarinos, para você, o que é viver a cultura Hip Hop e o Funk Style?
Não deveria haver confusão numa palavra que é clara e define tudo.
Você vive Hip Hop ou qualquer cultura que você faça parte… Acorda e se sintoniza com ela. Não pode ser como um personagem que você assume as vezes, como se fosse um ator numa peça de teatro.
É o dia a dia, é a construção do seu modo de ser, agir e pensar.
Viver a cultura (Hip Hop ou Funk Styles) é fazer ela ser parte de sua vida e não de um momento.
Viver esse dia a dia não deveria ser confuso, pois é a coisa mais simples. Hahahahahaha.

Pergunta de Elton Pedroso: o que você acha da geração atual do Funk Style do país e quais os funk stylers em destaque no país?
Acho que a cena vem crescendo e isso é bom, principalmente no Locking, pois é a dança que tem menos adeptos.
A cena do Popping, particularmente me enjoa, estou meio cansado da atitude dos “poppers” de forma geral pelo mundo. Tudo gira em torno de batalhas e vejo cada vez menos “Poppers” trazendo algo relevante pra cena.
Quando vejo alguém que é novo, que esta se destacando, eu constato rapidamente que o passado ainda foi melhor, salvo a minha “nostalgia” eu não acompanho muito, eu não vejo muito, pois não me interessa quem ganhou o ultimo campeonato, etc.
Por outro lado, acho que uma geração positiva esta vindo por aí, se pensarmos por exemplo na Jam Olido, que já tem 6 anos, pois podemos ver facilmente vários talentos aparecendo.
É só aguardar.
No Brasil eu posso citar alguns nomes que tem se destacado nos últimos tempos: Darlita, Kinho, Junao e Charada…

Uma mensagem final para os nossos leitores.
Paciência é a chave para o sucesso… Nada acontece da noite para o dia.
Street Dancers, curta o caminho não o encurte.