Quem é você?

Bia Mattar, uma baixinha “arretada” e muito agitada que não para nunca de pensar em dança e tudo que envolve esta arte. Casada com o músico Rodrigo Paiva há 23 anos, uma parceria gratificante de paixão, respeito e admiração mútua que nos faz mais criativos e felizes. Deste casamento nasceu Mayara, hoje com 19 anos, uma benção divina que preencheu as nossas vidas de maneira incondicional de tanto amor, ela é estudante de publicidade e propaganda, fotografa, escritora e também um artista da vida. Enfim, vivo num ambiente super favorável para a criação e produção de arte.

Como foi o seu início na dança?

Iniciei meus estudos em dança aos 4 anos de idade como aluna da minha mãe que também era bailarina e dançou no (Teatro) Municipal de São Paulo. Em seguida fui para a Escola de Ballet Evelyn em São Bernardo do Campos, SP, onde tive uma formação sólida, esta escola está comemorando 40 anos de atividade na região. A carreira de professora começou aos 14 anos, novamente ao lado da minha mãe e nos anos seguintes em diversas escolas da região. Ao longo dos estudos em dança frequentei aulas de Clássico, Jazz, Contemporâneo e Sapateado. Atuei como bailarina em diversas companhias de dança paulista e catarinense como Ballet Evelyn e Mahabhutas, além de inúmeras participações em pequenos grupos independentes, principalmente de jazz. Em 1990 mudei para Florianópolis e trabalhei como professora e diretora artística da escola Albertina Ganzo e em outras escolas da região. Em 2005 abri a minha própria escola de dança, Garagem da Dança, em Florianópolis, SC, especializada em sapateado. Em 2012, mudei-me para Balneário Camboriú, SC, e atualmente trabalho como professora convidada em escolas da região do médio vale. A minha carreira profissional sempre foi permeada por participações em festivais de dança, processos de política cultural e financiamento de produções culturais como forma de sobreviver desta arte.

Quem são suas influências no mundo da dança?

Agradeço imensamente a minha mãe, que falecida precocemente não conseguiu acompanhar de perto a minha vida na dança, mas sempre foi a minha inspiração e agradeço a ela por me apresentar e me incentivar nesta arte. Também sou muito grata a professora Evelyn Agabiti que além da técnica, sempre me ensinou ética, história, vocabulário e tudo que envolve uma carreira de sucesso. Por ser muito curiosa e hiperativa sempre corri atrás do aperfeiçoamento técnico no Brasil e no exterior. Os festivais de dança foram um momento muito importante nesta formação, onde pude conhecer inúmeros profissionais dedicados e que até hoje trabalham comigo nos eventos que participo.

Quando decidiu levar a dança como profissão?

Acho que nasci pra isso, até tentei outras áreas, mas foi frustrante… Gosto do palco, da sala de aula, dos projetos e dos sonhos a serem realizados. Para viver disso numa época que nem faculdade de dança tinha, na verdade apenas na Bahia, tive que procurar o conhecimento em todas as suas instâncias pedagógicas e artísticas. Fui ganhando o meu dinheiro e a minha independência ao mesmo tempo em que fui exigindo dignidade de trabalho. As oportunidades sempre aparecem para quem estuda e se dedica e nunca paro de estudar, mesmo sem ter faculdade de dança.

Como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?

Como já falei anteriormente, trabalho não falta para quem tem dedicação e força de vontade. Hoje, a informação está aí…. ninguém precisa ir tão longe como eu fui e nem de muito dinheiro para aproximar o conhecimento. O transporte, a internet, os financiamentos estão muito mais disponíveis agora do que em épocas anteriores. O Brasil está na mídia, na moda e esta é a hora de mostrarmos as nossas ideias.

Quais as características pessoais de um bom profissional da dança na sua opinião?

Antes de tudo, a Ética. Depois claro uma formação sólida em dança, tanto técnica como artística. Responsabilidade com a transmissão do conhecimento e respeito ao público.

Qual seu ponto de vista em relação à existência de Festivais de Dança?

Sou árdua defensora dos festivais de dança. Vivi pessoalmente a implantação deles desde o primeiro Festival de Dança de Joinville e ao longo destes 30 anos participo efetivamente dos processos de aperfeiçoamento e multiplicidade das ações formadoras dos festivais. O intercâmbio é incrível nestes momentos e o assunto em torno da dança toma nossa existência de assalto e nos desliga dos problemas pessoais, vivendo intensamente cada contato, cada momento. Os processos colaborativos e as transformações vão ocorrendo a seu tempo e aperfeiçoando os métodos de gestão destas oportunidades de encontro e discussão. Acima de tudo estar em cena e na sala de aula.

Até que ponto o dinheiro ajuda e atrapalha a arte da dança?

Eu acho que mais ajuda do que atrapalha, mas também já vi histórias lindas acabarem quando o dinheiro entrou em cena. A mobilização voluntária é sempre muito maior quando ninguém tem dinheiro. O dinheiro tem que ser uma energia propulsora, mas só depender dele não é saudável, ter um financiamento sustentável é muito difícil no Brasil, apenas 3 ou 4 iniciativas são bem sucedidas neste campo. Então, temos que buscar as oportunidades que aparecem em pequenas doses e com isso dar dignidade às produções e aos projetos.

Qual seu maior sonho profissional?

Sou super realizada no que faço e no que fiz até hoje. Mas gostaria muito de fazer uma faculdade de dança. Não que isso me faça falta na minha vida profissional, seria mesmo como mais uma realização pessoal. Gosto muito de ajudar aos outros, os grupos, os coreógrafos, os profissionais e os bailarinos e me dedicar a eles é algo muito gratificante.

Deixe uma mensagem final aos nossos leitores.

Amo muito a dança, mas esta dança humana, generosa e democrática.

Independente do grau do seu alongamento, de quantas pirouettes você gira e qual a altura de suas acrobacias, nunca perca a humildade e a vontade de aprender com os mestres antecessores, pois o alongamento diminui, o cérebro já não permite tantos giros e o corpo começa a se protege das fraturas. Com o tempo você percebe que o que nunca se perde é a sabedoria dos anos e a mesmo precisa ser transmitida.

Beijo grande a todos os leitores e muito obrigada ao DanceCast por esta oportunidade de reflexão.