Quem é Barbara Rey e onde atua profissionalmente hoje em dia?
Bailarina, coreógrafa e instrutora de ballet, trabalho há 22 anos como profissional no ensino, artístico e produção da dança. Desde cedo, minha atuação se voltou para o ensino e a coreografia. Dediquei-me ao desenvolvimento de uma metodologia própria baseada no que aprendi com meus mestres. No final dos anos 90, entrei em contato com a “Nova técnica Americana” (The New American School), herança de Balanchine e que me trouxe uma certa tranquilidade. Isto porque eu acreditava na intuição para a instrução de certos movimentos nas aulas de técnica, mas pelo fato de ter saído só da minha cabeça e ser oposto à forma tradicional, eu tinha dúvidas quanto à legitimidade da aplicação. Quando deparei então com a “técnica Balanchine” tive convicção para levar adiante e desenvolver esta metodologia.
Eu trabalho hoje para concretizar um projeto que é o Jovem Ballet de Santa Catarina. Comecei em 2006 mas, no ano passado, houve uma parada por falta de recursos. Tenho três projetos aprovados no MinC e atrás de captação. Um deles é a manutenção do Jovem Ballet. Os outros são eventos, um é uma Mostra Coreográfica de Fomento: Excercícios Cênicos que consta de 4 edições ao longo de um ano; o outro é o Seminário de Verão em Residência que já tem sua primeira edição marcada para este verão. Todo o foco e meu trabalho gira em torno da profissionalização de jovens.

Como foi o início de sua carreira e a partir de que momento você percebeu que queria a dança como profissão?
Meu começo foi difícil porque minha formação foi interrompida no pior momento. Meus pais achavam que a dança não era profissão para mim e, aos 15 anos, parei quando me preparava para entrar no 5º ano do Teatro Colón. Retomei somente aos 18 anos. Neste meio tempo me dediquei intensamente a esportes, entre eles o atletismo, era recordista de 100m com barreiras, conseguia fazer em 15s! Sabendo que o barco já tinha partido para ser uma bailarina profissional de ballet clássico voltei às aulas como hobby. Mas a dança não me largou mais e acabei me dedicando profissionalmente. Sempre teve algum fator externo provocando uma ruptura, mas sempre continuei adiante. Por isso comecei a ministrar aulas e coreografar para alunos, sempre estudando e procurando fazer o melhor trabalho possível. Tive muita sorte porque tive professores fantásticos ao longo desse processo todo.

O que é dança?
Como falei para os alunos da Escola Bolshoi na palestra sobre profissionalização, a dança é escolha de vida, é profissão, é trabalho. Fora as definições teóricas, científicas ou românticas, claro…

Qual seu contato com outras manifestações artísticas?
Entrei no universo artístico através da dança folclórica escocesa e participando de peças de teatro e musicais amadores e corais infanto-juvenis. Sempre participei – tanto no palco quanto nos bastidores – meu interesse sempre foi diverso.
Quando tenho oportunidade, trabalho com cenografia, depois de ter tido a honra de fazer o curso de Metodologia do Design Cenográfico com o Dr. Gastón Breyer, em Buenos Aires. Mas é claro que não é minha atividade principal.
Nos meus trabalhos em produção cultural acabo tendo experiências bem diversas no universo artístico e já tive a oportunidade de usar meus conhecimentos em dança associados a outras áreas como em cinema e artes visuais.

Quem são suas principais influências e parcerias profissionais?
Eu iniciei minha formação em ballet clássico em Buenos Aires, minha maître era Lilian de Sala (foi primeira bailarina do Teatro Colón e, além de ter seu próprio estúdio, foi professora na escola do Teatro). Com ela aprendi não somente técnica: ela era a estampa da elegância e da ética profissional, o que me marcou muito.
Na busca por conhecimentos que me subsidiassem, tive a sorte de cruzar com o Philip Beamish que é até hoje meu maître e orientador. Ele desenvolveu o Beamish BodyMind Balancing (R) e, na sua aula, o associa à referida técnica “Balanchine” que herdou diretamente do Stanley Williams e posteriormente com Wilhem Burmann em NY. Ele foi o “personal coach” da Alessandra Ferri durante 13 anos. Entre outras coisas, claro, fiz uma página pra ele www.philipbeamish.com, mas já está um pouco desatualizada.
Juntos, trabalhamos para desenvolver vários projetos de companhias jovens como o Jovem Ballet de Santa Catarina e ele vai vir trabalhar em Santa Catarina assim que consigamos o patrocínio e o Jovem Ballet volte às atividades.

Qual a importância de um currículo acadêmico na carreira de um profissional de dança?
O mercado de trabalho, cada vez mais, exige um diploma acadêmico. A importância vai depender da profissão que você construir para você mesmo e de seus interesses. Hoje em dia, a profissão dança é muito mais ampla, mais diversa e apoiada por muitas áreas que complementam que dão suporte. Para a maioria dos casos um diploma acadêmico só tem a acrescentar, porque vai dar mais qualificações na hora de procurar um emprego.
Se você é um jovem bailarino que quer entrar para uma grande companhia, o seu foco deve ser na instrução técnica e artística que faça isso acontecer. Requer tantas horas de trabalho que dificilmente vai ter tempo de se dedicar paralelamente a estudos acadêmicos. Isto pode acontecer mais tarde quando o artista está estabelecido ou já no final de sua carreira nos palcos como bailarino/intérprete. Mas se este profissional seguir carreira dentro do universo das companhias profissionais, dos teatros, sua competência e experiência são suas credenciais e ninguém vai exigir um diploma acadêmico.
Os estudos acadêmicos de dança são os que deram embasamento teórico e científico contribuindo para que a dança fosse reconhecida como área de conhecimento específico, ou seja, que se distingue de qualquer outra, tem as suas próprias características. Os pensadores da dança são peça fundamental para crescimento da nossa profissão, assim como os criadores, os intérpretes e demais profissionais/artistas da dança.
Essa é mais uma beleza da dança: por ser arte, permite a transmissão de mestre para discípulo como tradicionalmente se conhece, mas, paralelamente, existe o mundo acadêmico da dança onde podemos analisar processos intelectual e cientificamente, desenvolver metodologias, teorias, aplicar outras ciências para o melhoramento das técnicas, enfim, uma infinidade de aspectos.

Que características devem compor um bom profissional de dança e que dicas você da àqueles que assim querem ser?
O mercado de trabalho brasileiro não consegue absorver todos os profissionais. Especialmente quem quer entrar para uma companhia.
É um mercado muito competitivo e, na maioria dos casos, com baixa remuneração devido à falta de empregos fixos e da oferta regular de contratações.
Por este motivo o profissional de dança bem sucedido hoje é aquele que consegue maior amplitude na sua capacidade de trabalho, apropriando-se de conhecimentos e habilidades que lhe permitam transitar no mercado com maior empregabilidade, sustentabilidade e auto-suficiência.
Dizem que a dança escolhe quando quer e como quer os seus devotos. Que é trabalho, trabalho, trabalho, não somente físico, mas também intelectual e espiritual. Mas eu não acho que isso seja diferente da maioria das profissões, tem pessoas mais ou menos dotadas naturalmente para um ofício, isso não quer dizer que não haja histórias de sucesso, tanto para quem começa com vantagens, quanto para àqueles que tiveram que batalhar muito para dar cada passo.
O profissional que cada um pode ser depende, em primeiro lugar, do esforço que dispendemos, dos sacrifícios, das opções que fazemos e de nossa capacidade para o desenvolvimento.
Desde muito jovens temos que aprender a planejar, a projetar com os pés na terra e sempre ter plano B. Temos que aprender a tomar decisões e fazer opções como um verdadeiro profissional desde cedo e, para fazê-lo, quanto melhor informado, melhor.

Como você enxerga a vida profissional de dança no Brasil e de que forma essa arte é realmente vista como profissão?
Não é diferente de outros países e não é de hoje. De certa forma é uma velha história. São poucas oportunidade de trabalhos, poucas produções, grande crescimento do número de profissionais. Nossa classe profissional precisa de mais regulamentação, mas estamos no caminho certo. A classe está mobilizada e em constante análise e atualização das necessidades da profissão hoje.
A construção e desenvolvimento de nossa profissão, do que queremos que a profissão dança seja, depende de todos, do esforço e interesse coletivo. Todos precisamos estar envolvidos, tomar conhecimento da realidade e isto não acontece se não participamos e nos comprometemos com a adequação das políticas públicas para cultura, para que correspondam à realidade da dança na atualidade.
Hoje em dia, por exemplo, se estuda e trabalha para criar uma Lei da Dança, já que a lei que nos ampara como profissionais é a Lei do Artista, mas sendo a dança uma área específica de conhecimento, tem necessidades que essa Lei não atende.
Eu acho que quem não considera a Dança como uma profissão é igual àqueles que olham e não vêem nada!

Você é fundadora e diretora do Instituto Jovem Ballet de Santa Catarina, projeto profissionalizante de dança. Comente sobre o projeto.
O Instituto foi fundado em 2008 para formalizar as atividades que o Jovem Ballet desenvolvia desde 2006. Tem objetivos muito amplos e está aberto ao apoio de projetos em qualquer área cultural.
O Jovem Ballet se constitui como um âmbito profissionalizante de transição, por onde bailarinos de diversas idades e interesses transitarão a procura dos seus objetivos profissionais, mantendo no entanto seu compromisso com a entidade de forma específica e clara por períodos não inferiores a uma temporada. É uma companhia profissionalizante onde os bailarinos podem se preparar para o grande passo, adquirindo experiência e, num ambiente sustentável, conhecer a profissão dança enquanto continuam a estudar recebendo bolsa de estudos e moradia. Pode ser comparado a uma incubadora.
Lamentavelmente, no momento resolvemos parar de trabalhar até conseguir a infraestrutura e os recursos financeiros necessários para honrar a proposta original. Com projeto aprovado no MinC, estamos em processo de captação.
Os outros projetos são os que mencionei antes.

Você já atuou como presidente da Aprodança/SC (Associação Profissional de Dança de Santa Catarina. Como funciona a Associação e de que forma você enxerga a importância da existência da mesma?
A Associação está presente em conselhos municipais de cultura, pareceristas de editais, comissões de pauta de teatros, no Conselho Estadual de Cultura de SC e no âmbito federal, nas câmaras setoriais de MinC/Funarte.
A participação como associado e opcional e pode ser de duas formas, associado ativo (paga anuidade de R$ 25,00 e recebe uma carteirinha, o que da direito a votar e ser votado em assembléias, descontos em espetáculos, e todos os benefícios que a Associação possa vir a oferecer) ou associado passivo (que não paga anuidade mas pode participar de todas as assembléias)
Toda pessoa envolvida com dança pode participar ou associar-se. Tem todos os dados necessários no site: www.aprodancasc.org ou no blog: www.aprodancasc.blogspot.com/.
Tem também um fórum online para discussões e informações no http://groups.google.com/group/ scforumdedanca. É só pedir para que seu email seja incluído e pronto!
Básicamente trabalhamos para o bem da classe, todo trabalho é voluntário, dever cívico mesmo. Informamos e contribuímos para o crescimento de todos.
Como falei antes, nossa profissão, o que é e o que pode ser, depende de todos nós. E o tempo que dedicamos na Aprodança trabalhando, discutindo, contribuindo, se reverte na melhoria da profissão.

Se pudesse gritar ao mundo da dança, o que gritaria?
Cuidado com o individualismo, não se deixem atrair pelo divismo que enrijece consciências e destrói todo intento de esforço coletivo. (Adaptado do livro de Ines Malinow/Mulheres Argentinas – Maria Ruanova)