Quem é Allan Lemaja?
Eu sou um cara perfeccionista, disciplinador, rigoroso e que tem a sorte de ter a dança não só como hobby, mas também como emprego. Acho também que sou muitas vezes mal interpretado por exigir demais das pessoas e ser sincero além da conta, assim esquecendo de usar eufemismo nas minhas afirmações. Acho que a vida é dura e que é melhor aprender com as pessoas que gostam de você estando assim preparado e confiante para enfrentar os desafios que virão.

Quais os estilos de dança com que trabalha?
Atualmente mais com o vídeo dancing e o jazz funk (o termo gay style não existe, ok gente!?). Treinava antes o Krumping, mas parei, e às vezes dou aula de hip hop dance.

O que te fez entrar no mundo da dança? Quando você tomou a dança como profissão?
A dança já estava no meu sangue desde pequeno. Nas festas, quando tinha ainda 13 anos era eu quem começava a dançar para, então, as outras pessoas tomarem coragem. Mas no hip hop comecei aos 17 anos quando fiz um curso com um israelense naturalizado americano, chamado Yoham Szabo que veio dar o primeiro curso de hip hop na minha cidade, Niterói. Logo após um ano comecei a frequentar os cursos da Fitness Brasil, principalmente em Santos e logo após já comecei a ministrar aulas em algumas academias de ginástica da minha cidade.

Como foi a sua trajetória no meio da dança, dos tempos do Rua em Dança até o Out of Bonds?
O grupo começou em 1995 com outro nome, em 1998 viramos Rua em Dança. Dançávamos “vogue”, que era o estilo do DRB e em 2001 veio o primeiro trabalho com cara própria chamado “Foto Viva” que nos colocou de vez no cenário nacional, no qual ficamos em segundo lugar no Festival de Dança de Joinville. Em 2002, nossa coreografia mais conhecida e de maior sucesso, “Night Club” e, em 2003, a coreografia que foi responsável por termos ido representar o Brasil no mundial da Republica Theca e que futuramente fez com que eu ficasse por lá e criasse o Out Of Bounds em 2007.

Quem são suas influências artísticas? Quais ajudaram a criar a sua forma de dançar?
No começo, me espelhei no DRB e depois no Street Soul. Minha forma de dançar foi influenciada por todos os profissionais que já tive contato até hoje, somado às minhas próprias inspirações.

Com a sua experiência como coreógrafo, quais os elementos que formam uma boa coreografia?
Procuro sempre criar e não copiar. Me policio muito para que meus trabalhos tenham uma assinatura própria, pois acho que isso é o mais importante. Bons elementos numa coreografia são transições imprevisíveis, trabalhar em diferentes níveis, desenhos coreográficos originais e, é claro, procurar surpreender.

Diversos grupos tentam colocar todos os estilos de danças urbanas dentro de uma coreografia para os festivais. Qual a sua opinião sobre isso?
Vou ser o mais direto possível, porque não sei quem foi que inventou que pra ser bom tem que trabalhar com todos os estilos das danças urbanas, mas eu sou a favor de cada grupo mostrar o seu forte. E se o seu forte é só 1 ou 2 estilos, então prenda-se a eles. E quando estiver dominando outros estilos, aí sim os incorpore a seu trabalho também achar melhor. Quando se dança algo mal dançado e sem técnica você expõe seus defeitos e falhas e as pessoas tendem a não mais enxergar e reparar tanto nos seus pontos fortes. Inclusive esse é um ponto utilizado nas empresas hoje em dia, de se focar nos pontos fortes e torná-los mais fortes ainda, ao invés de focar nos pontos fracos.

Qual seu contato com outros estilos de dança ou manifestação artística?
Quase nenhum diretamente. Cheguei a fazer algumas aulas de ballet, mas desisti. Aprecio muita coisa de contemporâneo, procuro sempre assistir algo que tenha sido informado ser de qualidade e busco, às vezes, ir a festivais e mostras lá fora pra ver algo de novo.

Que diferenças você destaca ao comparar a vida profissional de dança do Brasil e no exterior? E quais as dicas que você daria a quem pretende trabalhar no exterior?
A diferença se da pelo fato de ser realmente possível viver de dança no exterior. As pessoas culturalmente enxergam que é uma profissão como outra qualquer e têm respeito pela arte da dança. As empresas e os contratantes também levam a sério e tratam os dançarinos de maneira profissional e dando valor artístico e financeiro ao trabalham. Primeiramente, é necessário conseguir algum visto de trabalho ou, pelo menos, um visto para que esteja legalmente no país que você escolher. As oportunidades cada um constrói sozinho, mas importante é levar a sério, pois as pessoas irresponsáveis e que não se comprometem com o trabalho acabam não conseguindo sucesso e tendo que retornar.

Que tendências você tem visto no meio da dança na Europa? Tem algo que está fazendo sucesso lá fora e que você viu que ainda não chegou ao Brasil?
Na Europa, as batalhas ficam sempre em primeiro lugar, no Brasil já aconteceu, mas a cultura dos grupos de coreografia é ainda bem mais forte. Todo mundo na Europa se sente meio que obrigado a começar a treinar freestyle para poder futuramente batalhar.
Também cito que a grande maioria dos grupos de street dance querem dançar todos os estilos das danças urbanas em suas coreografias, da mesma maneira como funciona no Brasil.
Em termos de estilos, o jazz funk está em em evidência e o vídeo dancing também. Mas não lembro que tenha algum estilo que ainda não tenha chegado ao Brasil.

O que é mais trabalhoso: ser dançarino, coreógrafo ou proprietário de estúdio?
Ser dançarino com certeza é o mais fácil de todos, basta manter um ritmo de treinos e aulas para que esteja trabalhando o corpo e o cérebro, para quando for necessário aprender alguma coreografia ou dançar freestyle, estar bem condicionado e mentalmente preparado.
Ser coreógrafo é mais complexo, pois envolve criação, não que o dançarino não tenha que criar quando estiver improvisando, mas o processo é diferente, pois tem que se criar composições coreográficas, efeitos em grupo, etc. Não é sempre que temos inspiração para criar algo novo. Por mais que você tente exercitar a mente para criar mais facilmente, ainda é um processo que não se tem muito controle. A inspiração tem que aparecer…
Ser proprietário de estúdio é cuidar de tudo e praticamente passar o dia todo trabalhando, inclusive quando não se esta fisicamente trabalhando. Eu passo o dia todo me preocupando com o que pode ser feito para atrair mais alunos, não perder os que já tenho, com os horários das aulas, com os professores, com o pagamento dos alunos, o pagamento dos professores, a limpeza do estúdio, etc… Será que preciso mesmo responder o que é mais difícil dos três?

Que diferenças você nota no cenário da dança comparando quando você começou com os dias atuais?
Quando falo, sempre me refiro às danças urbanas, portanto acho que em termos dos grupos, a maioria não tem sua própria identidade, o que era claro antigamente.
A “geração youtube” tem a grande vantagem de ter acesso à informação fresquinha a todo o momento, em compensação tem que se saber dosar isso corretamente.
Quantas pessoas simplesmente deixaram de querer e se esforar para criar? É muito mais fácil, hoje em dia, pegar algo pronto, reproduzir e “obter sucesso”. Mas é um sucesso temporário!
Acho que os bailarinos têm a chance de estarem bem mais preparados, mas em compensação estão muito mais preguiçosos.

Como foi o seu trabalho no programa Se Ela Dança Eu Danço do SBT? Você já tinha uma experiência com programas do gênero?
Foi ótimo! Em primeiro lugar, gostaria de falar que fico um pouco chateado, pois a maior parte das pessoas do meio da dança só falam mal do programa. Também concordo que vários pontos no programa são falhas, mas acho que apenas falar mal e boicotar o programa não traz nada de positivo.
O certo seria enviar sugestões, contatar os profissionais que estão participando do programa, para que esses levem opiniões e sugestões.
É a primeira vez que é feito um programa exclusivamente de dança no país. Esse programa é inspirado no So You think You Can Dance, que já existe na grande maioria dos países do mundo.
Então, creio que tem que se procurar os pontos positivos de finalmente algo assim estar acontecendo no Brasil e também entender que o programa ainda é piloto, estão adaptando regras e formato. Tenho certeza absoluta que se houver uma segunda temporada, será mil vezes melhor. Como aconteceu com os demais programas nos outros países também.
Meu trabalho foi montar uma coreografia de abertura para todos os finalistas dançarem juntos. Tivemos apenas um dia para que eu os ensinasse, ensaiasse e tudo mais. Levou umas seis horas mais ou menos e todos foram bem dedicados. No dia seguinte, gravamos e eu fiquei feliz com o resultado final. Com certeza acho que poderia estar mais limpo, mas com o tempo que tivemos foi mais do que proveitoso.
O espaço me dado pelo diretor e toda a equipe de produção deve ser ressaltado também. Eu já sabia exatamente o que queria fazer, me utilizando de determinadas câmeras e ângulos em momentos específicos, sabia o que queria de figurino, de efeitos de luz e tudo mais. Fui prontamente atendido em todas os meus pedidos e ainda fizeram questão de escutar meus conselhos e opiniões sobre todo o programa em si.
Só tenho coisas boas a dizer e torço para que no próximo ano mais dançarinos bons estejam lá, pois sei que muitos dos melhores optaram por não ir.
Já tive experiência de dançar num programa do gênero, a versão tcheca e eslovaca do Britain’s Got Talent. E o que mais me surpreendeu foi a qualidade da produção. Basicamente tudo que nos quiséssemos fazer no palco em termos de efeitos estavam a disposicao. Fazer algo no qual não tem que se preocupar quanto custa e se é possível fazer é simplesmente excelente! Você não tem que limitar suas criações.

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Se vocês tiveram paciência de ler até o fim, parabéns!
Mas agora falando sério: mesmo que pareça brega e já batido: Se você tem um sonho, acredite e lute para que ele se torne realidade, porque um homem sem sonho é um homem sem nada!